Foto Acervo da Fundação Padre João Câncio

Créditos: Acervo Fundação Padre João Câncio

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Montados em cavalos ou burros, com vestimentas de couro para se proteger do sol e do mato, eles conduzem o gado aos currais e pastagens com versos e melodias lentas ou “aboios”. Os vaqueiros, personagens que convivem com as adversidades do sertão, também são lembrados pela fé. A tradição começou há quase meio século e teve no músico Luiz Gonzaga, o rei do baião, um grande incentivador.

No alto sertão do Araripe, na cidade de Serrita, a cerca de 550 km da capital pernambucana, o terceiro domingo de julho é dedicado à coragem desses trabalhadores, quando é celebrada a Missa do Vaqueiro, reconhecida como bem imaterial do Estado de Pernambuco. Em um fim de semana, a cidade sedia apresentações musicais, danças e torneios, em uma festividade que reúne 70 mil pessoas e cerca de 1.500 vaqueiros vindos de cidades próximas e até de outros estados.

A Missa dos Vaqueiros é celebrada em memória à figura de Raimundo Jacó e em homenagem a todos os vaqueiros dos quatro cantos do Brasil, especialmente os do Nordeste. Jacó foi assassinado nas caatingas do sítio Lages, distrito da cidade de Serrita. O hino da celebração da festa é a canção “A Morte do Vaqueiro”, eternizada na voz do cantor e compositor Luiz Gonzaga. O episódio que deu sentido à celebração em suas origens é lembrado nos primeiros versos da obra: “Numa tarde bem tristonha / Gado muge sem parar / Lamentando seu vaqueiro / Que não vem mais aboiar”. Para o secretário de Cultura de Serrita, Thiago Câncio, a festa que nasceu da contestação por conta de um assassinato se transformou "em grande exemplo de fé, coragem e paixão pelo gado”.

 Vaquejadas, baião, xote, xaxado e pega de bois

No terceiro fim de semana de julho, a cidade é palco de vaquejadas, ao som de sanfoneiros tocando muito forró pé-de-serra, baião, xote, xaxado, ciranda, coco e os tradicionais repentistas. Tem também a feirinha de artesanato. A festa começa já na sexta à noite, com apresentações musicais em um palco montado. No Parque Estadual Padre João Câncio, destaque para uma programação de palestras sobre tradições nordestinas. Acontece uma pega de boi numa fazenda próxima. Em plena vegetação de caatinga, duplas de vaqueiros correm montados em seus cavalos para pegar um boi e arrancar o colar que o animal traz no pescoço. Cerca de 300 bois participam e vence a dupla que pegar o boi no menor tempo possível.

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O artesão Irineu do Mestre, de 49 anos, participa, desde os sete anos de idade, como vaqueiro e responsável por confeccionar – hoje com a ajuda dos três filhos e da esposa – vestimentas que são sorteadas durante o evento. Irineu explica que, ao todo, são 27 peças de couro que compõem a indumentária do vaqueiro, incluindo os itens que vestem o animal. Uma roupa completa de vaqueiro pode custar de R$ 1 a R$ 3,5 mil.

Filho e neto de artesão, Irineu conta que a família mantém a tradição da arte no couro desde 1909. Tudo começou com o seu avô, que “era tão pobre que andava descalço”. Irineu foi o único de seus irmãos a aprender o ofício, que é a sua principal fonte de renda. "Luiz Gonzaga começou a usar chapéu de couro, lembrando Lampião. Um artista fazer referência a um cangaceiro não era algo muito fácil. Aos poucos mudou um pouco o estilo, passou a usar o gibão e o chapéu do vaqueiro. Uniu as duas coisas”, acredita o artesão.

Vestimentas de couro no altar, missa com instrumentos musicais

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No domingo da missa, por volta das 4h00 da manhã, o artesão sai de seu sítio em Salgueiro para chegar às 7h00 no Parque Padre João Câncio. "Gosto de chegar um pouco antes para deixar o animal descansar antes da celebração", conta. “O mais bonito é ver os vaqueiros em comunhão, trocando bênçãos. No ofertório, as 27 peças são lembradas com versos. Depois da comunhão, partilham queijo, rapadura, carne assada. Misturam tudo em um utensílio semelhante a um chapéu. Quase todos levam alguma coisa”, diz Irineu do Mestre, que já fez artesanatos em couro para Dominguinhos, Gonzaga e para ‘personagens’ de telenovela.

Os vaqueiros chegam à arena em que ocorre a missa tocando instrumentos e repetindo versos. Em caravanas, alguns chegam de véspera e acampam no local em acomodações improvisadas. “Quase todos têm um veículo para reboque do animal. Levam uma cama, amarram o animal próximo ao veículo e acampam ali. O hotel é no mato”, diz Irineu. Na missa, trajados a caráter, vão ao altar e depositam vestes de couro como oferta.

“A Missa do Vaqueiro de Serrita foi a pioneira e a partir dela surgiram várias. Hoje, o vaqueiro é homenageado em toda a região Nordeste, devido à sua importância na colonização dos sertões”, afirma a organizadora da festa, Helena Câncio, conhecida como a “viúva do padre” João Câncio. O padre foi quem foi criou a missa há 46 anos. Depois, largou a batina e casou-se com Helena. Depois de seu falecimento, ela assumiu a coordenação da festa.

“A missa é emocionante. Já chorei vendo os vaqueiros desfilarem, balançando chocalhos. Eles são lutadores, guerreiros, uma gente muito simples, sem luxo”, afirma o cantor Josildo Sá, que interpreta o repertório com músicas de Luiz Gonzaga e Janduhy Filizola que anima a festa. Ele explica que a parte musical da celebração inclui 11 canções, mantidas todos os anos quase como "um mantra" pedindo chuva, saúde e proteção para os vaqueiros e seus animais. "É uma região muito seca, mas basta uma gotinha de água no solo para nascer uma flor”, diz.

Missa em Petrolina

Às margens do Rio São Francisco, em Petrolina/PE, a missa para os vaqueiros fecha os festejos juninos no último fim de semana do mês de junho. Sempre a céu aberto, é celebrada há oito anos pelo padre José Guimarães, de 38 anos. O padre ressalta que "a tradição tem, pelo menos, 100 anos no local". Em Petrolina, os vaqueiros têm lugar de destaque nas festas juninas. “São homens de fé e com uma cultura própria. Tem o canto, as vestimentas, os itens depositados no altar que são abençoados”, conta José Guimarães, explicando que nas celebrações são reverenciados santos como Nossa Senhora das Grotas (padroeira dos vaqueiros do sertão) e São Francisco.

"Em Petrolina, coincide com a festa de São Pedro e São Paulo. Eles lutaram muito pela fé, assim como os vaqueiros, que a mantêm viva”, diz o religioso. “Nasci e fui criado na região. Cresci na igreja e digo que fui vaqueiro antes de ser padre. Tenho apreço e carinho por essa classe que sofre um pouco de discriminação. Meus pais se casaram numa festa de Vaqueiro, em Jutaí”, acrescenta o pároco da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Santa Maria da Boa Vista, cidade vizinha.

Maior visibilidade a típicos heróis do sertão

Outros versos da composição de Luiz Gonzaga, que se tornou o símbolo da Missa do Vaqueiro, dizem: “Bom vaqueiro nordestino / Morre sem deixar tostão / O seu nome é esquecido / Nas quebradas do sertão / Nunca mais ouvirão / Seu cantar, meu irmão”.

Para a bibliotecária, Regina Machado, da Fundação Joaquim Nabuco, é preciso lembrar mais da figura do vaqueiro pela importância cultural e pela função que exercem. “Muitos exemplos da cultura popular não são vistos. A história deve ser contada a cada geração. Os vaqueiros estão presentes desde a época da colonização. Mas os encontros entre eles eram escondidos”, afirma. Ela destaca que, durante a missa, eles agradecem aos frutos que foram colhidos durante o ciclo. “Os vaqueiros pedem dias melhores, que Deus os proteja e que mande chuva. Eles vivem da esperança, o que caracteriza bem o povo brasileiro”, diz a pesquisadora acrescentando que a sanção da lei que regulamenta a profissão no país é apenas de 2013.

“O ofício do vaqueiro caracteriza-se por sua bravura, coragem, determinação e paciência. Na caatinga – vegetação nativa, inóspita – o gado embrenha-se fugindo dos currais e o vaqueiro é chamado para resgatá-lo. Para enfrentar seus mistérios e desafios, o vaqueiro vivencia um verdadeiro ritual de fé e coragem. A sua única companhia na dura jornada é o cavalo, além da sua própria voz a entoar aboios, um canto nostálgico na dolente caatinga”, resume o texto de convite da festa produzido pela Fundação Padre João Câncio.

Festa foi inspirada no 'Rei do Baião'

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A Missa dos Vaqueiros de Serrita foi criada em homenagem à morte do vaqueiro Raimundo Jacó, famoso em todo o sertão e morto em 1954 quando exercia o ofício. A celebração teve grande incentivo do músico Luiz Gonzaga que fez a canção para o episódio. Em 1970, o padre João Câncio celebrou a primeira missa no Sítio Lages, local onde o corpo de Jacó foi encontrado. Até que o corpo fosse encontrado, o cachorro do sertanejo teria permanecido próximo ao dono e rejeitado alimentos, mesmo após o velório de Jacó, e assim permaneceu até morrer. “Sacudido numa cova / Desprezado do Senhor / Só lembrado do cachorro / Que inda chora sua dor / É demais tanta dor", diz ainda “A Morte do Vaqueiro”.

O evento é atualmente organizado pela Fundação Padre João Câncio em parceria com a Associação dos Vaqueiros de Pega de Boi na Caatinga do Alto Sertão de Pernambuco e pela prefeitura de Serrita. A associação dos vaqueiros é responsável pela recepção aos vaqueiros vindos de vários lugares, ajudando na alimentação e acomodação. “É sempre um desafio, mas temos colhido bons frutos. Nosso maior objetivo é manter a tradição da festa”, conclui Helena Câncio.

CALENDÁRIO

Festa do Vaqueiro

Onde: Nordeste, Pernambuco, cidade de Serrita (alto Sertão do Araripe).

Quando: terceiro domingo de julho