Cristino Martins

Créditos: Cristino Martins

A tradicional festa está em processo de tombamento no Iphan (Instituto Histórico e Artístico Nacional).

Diferente de outras regiões do país, em Bragança, Belém do Pará, o dia de São Benedito é 26 de dezembro. A proximidade com o nascimento de Jesus Cristo fez com que na região a festa ganhasse o apelido de "Natal dos Pretos". Tudo começou no final do século XVIII, mais especificamente no ano de 1798, quando 14 escravos pediram permissão aos seus senhores para criar a Irmandade em louvor ao Santo Preto - como é chamado pelos devotos. O pedido foi aceito e, em agradecimento, os negros dançaram de porta em porta pelas ruas da cidade. E assim nasceu uma das mais tradicionais e populares festas em homenagem ao santo, padroeiro de Bragança. De acordo com os historiadores, a Marujada de Bragança é realizada há mais de 200 anos.

Mulheres vestidas com saias, túnicas e fitas e os homens – ou “marujos” de chapéu – ganham as ruas em uma grande procissão. Além das celebrações religiosas, a cidade homenageia o padroeiro em grande estilo, com apresentações variadas de música e dança que acontecem geralmente entre os dias 18 e 26 de dezembro, reunindo até 80 mil pessoas. O retumbão é a dança típica: as marujas passeiam em filas em passos curtos e volteios rápidos, enquanto os homens tocam. As mulheres têm um papel de destaque e os homens são os instrumentistas: rabeca, violino, banjo, pandeiro e tambor compõem as apresentações. Cortinas brancas e vermelhas enfeitam as fachadas. A tradicional festa está em processo de tombamento no Iphan (Instituto Histórico e Artístico Nacional).

Segundo o historiador Dário Benedito Rodrigues, professor da Universidade Federal do Pará: “A data do dia 26 de dezembro foi uma escolha. O vigário ia a Bragança rezar o Natal dos brancos, no dia 25, e a Irmandade aproveitou a sua presença para celebrar o santo negro". Importante ressaltar, diz o especialista, que no século XVIII a igreja era muito incipiente no município. "No interior, estava presente apenas nas datas festivas”, afirma o pesquisador que estudou a manifestação desde a graduação até o doutorado. Dário também é marujo desde 1997.

Dança afro e fé

Walter

Créditos: Walter

Uma imagem peregrina de São Benedito passa por casas, estabelecimentos e instituições da cidade.

“A Marujada é um auto popular ligada à dança. Faz parte do culto de São Benedito. Não acontece de forma independente. O sagrado e o profano são indissociáveis neste caso”, ressalta o historiador.

O dia começa com uma missa de manhã na Igreja de São Benedito. De lá, os marujos seguem para um barracão, ao lado da Igreja Matriz de São Benedito, onde a Marujada faz suas danças. Os marujos andam e dançam descalços. Entre os diversos instrumentos de corda e percussão, o destaque é para a rabeca. “É o instrumento que dá o tom da festividade”, destaca ainda Dário Benedito Rodrigues.

A roda, em frente à igreja, abre e fecha as apresentações de dança na festa. No retumbão, considerado uma dança afro-brasileira e identificado com o lundu marajoara, dois casais dançam a cada rodada. Quem inicia é o capitão e o vice-capitão, com seus respectivos pares. Em outro momento, é tocado o chorado, bailado por um casal de cada vez; e ainda a mazurca, de origem europeia, também em pares. Há também valsa, arrasta pé, xote e contradança. A procissão sai às 16h da igreja, no retorno é celebrada uma missa campal, que reúne cerca de três mil pessoas.

Muitos estão ali motivados por promessas. José Maria Santiago, de 60 anos, é um deles. Ele é integrante da Irmandade da Marujada de São Benedito e participa há quase 50 anos da Marujada de Bragança. “Desde os 12 anos, quando minha mãe fez promessa para que eu me curasse de um problema no intestino. Até hoje faço questão de estar presente para contar a minha história”, diz.

A roda de dança é aberta

Um casal de capitães, de vice-capitães e de juízes compõem a hierarquia da festa. Quem comanda é chamada de ‘capitoa’, função ocupada por Maria de Jesus Silveira, conhecida como Bia, de 58 anos. Participam, em geral, em torno de 200 marujas, "mas pode chegar quem quiser". A ‘capitoa’ conta: "cadastradas mesmo são 120 marujas. No dia da festa vem gente de outros locais também. Se querem participar, conseguem comprar as roupas e chega”.

Tradição e São Benedito

Uma imagem peregrina de São Benedito passa por casas, estabelecimentos e instituições da cidade. Num hotel, onde a recepcionista Lucinete da Silveira trabalha, a imagem do santo é recebida. “Quando escutamos o tambor, vamos para a frente receber a imagem na entrada. Hóspedes e parte da equipe cantam e fazem oração”, diz Lucinete. O filho de Lucinete é marujo desde antes de completar 15 anos. Para agradecer uma causa atendida, Lucinete cumpre a promessa de acompanhá-lo na procissão.

Há, por outro lado, quem goste de ser marujo para seguir uma tradição de família. O presidente da Marujada, João Batista Pinheiro, seguiu os passos de seu pai. “Meu pai foi presidente por 41 anos, fui criado nessa tradição. Desde 1991, sou presidente e não mudou nada na Marujada. Não podemos mudar algo que acontece há 218 anos. Minha família, meus filhos participam”, diz.

Marujas no comando

“A mulher tem maior participação. São cerca de dois homens para cada dez mulheres. A mulher de Bragança vestida de maruja é rainha”, ressalta o historiador Dário Benedito Rodrigues. Quem preza pelos costumes e comportamento adequado durante a Marujada é sempre a ‘capitoa’. É um cargo vitalício sempre exercido por uma mulher. Ela é a verdadeira comandante, sabe dançar, participa sempre de ensaios ou apresentações e conhece todos os marujos. “Os homens são seguidores na Marujada”, pontua o capitão José Maria Santiago, de 60 anos que, há 47 anos, é integrante da irmandade. “Os tocadores podem ser tanto homem quanto mulher, basta saber tocar”, acrescenta.

“Dou as ordens para as marujas, fiscalizo as roupas, as danças e o comportamento. Quando tem algo fora das regras, chamo a atenção. Dependendo da gravidade, posso dar uma punição. Dou advertência e posso afastar de um até dois anos”, explica Maria de Jesus Silveira, a capitoa Bia, sobre suas atribuições. Ela está no comando desde 2004. Após ocupar a função de ‘vice-capitoa’, foi nomeada como a pessoa à frente da Marujada. Esposa do capitão José Maria, ela participa há mais de 30 anos, por influência dele, que entrou para a Marujada para honrar uma promessa feita a São Benedito. No dia 25, as marujas vão buscar a ‘capitoa’ em casa. Tomam café da manhã juntas e vão para a igreja. Ficam direto no barracão.

“Quando comecei não havia tantas marujas jovens. Meninas de 12 a 14 anos participam. Umas por promessa dos pais, outras crianças acham bonito e a mãe, quando participa, incentiva muito”, acrescenta.

A farda da Marujada

Mulheres usam blusa de cambraia branca franzida com pala e rendada, saia vermelha, com anágua branca por baixo, flor vermelha do lado esquerdo. O chapéu, parte importante da indumentária, tem base dourada e copa alta feita de isopor, com flores brancas feitas de pena de pato em volta. Além disso, as marujas se enfeitam com fitas coloridas e colares.

O chapéu dos marujos é de palha coberta por um pano branco, com a aba virada e uma flor fixada em um dos lados. No braço esquerdo, amarram uma fita vermelha com um laço. Eles vestem calça branca, cinto preto, camisa branca. O tempo de uso depende do cuidado, podendo durar até cinco anos.

“Ninguém gosta de sair com a roupa se estiver feia, todo mundo quer se arrumar bem”, diz a ‘capitoa’. Só quando não estão na procissão ou no barracão que podem tirar o chapéu. Ainda segundo recomendação da comandante, não pode se esquecer de usar a anágua. Nem as crianças ficam de fora das regulações.

Breno Peck

Créditos: Breno Peck

A Marujada começa com uma missa matinal na Igreja de São Benedito.

Azul no dia 25

No dia 25 a cor é azul para representar o menino Jesus; e no dia 26, é o vermelho, cor que faz referência à realeza, no dia litúrgico de Santo Estêvão, primeiro dos mártires da Igreja Católica. “A partir da década de 20 do século XX, a roupa passou a ser essa. A dos homens mudou mais. Não tinha o aspecto cromático, pois os escravos não tingiam suas roupas", diz Dário Benedito. "Aos poucos, a festa foi ganhando o formato atual, mas muitas tradições se preservaram na Marujada", conclui o pesquisador, acrescentando que "Marujada é um nome que se dá a folclores típicos do Nordeste e do Norte do país”.

CALENDÁRIO

Onde: Região Norte, em Bragança, Belém do Pará

Quando: entre os dias 18 e 26 de dezembro